Jornalista denuncia em livro-reportagem o assédio no ensino superior

Produzido originalmente como produto experimental no trabalho de conclusão de curso da autora , Vozes é o primeiro livro não-ficcional de Giulia Santana 10 de setembro de 2019

“Se você foi vítima de assédio sexual e nunca pôde falar sobre isso, espero que esse livro lembre que você não está sozinho(a)”. É dessa forma que Giulia Santana, 21 anos, escritora e jornalista, formada pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), apresenta para os seus leitores, ainda no prefácio, “Vozes: Assédio Sexual na Universidade: Quem sofre, quem faz, quem vê, quem se cala”. Esse é o primeiro livro-reportagem da autora, produzido originalmente como produto experimental em seu trabalho de conclusão de curso.

Vozes marca a estreia da jovem escritora no gênero não-ficcional, mas não é o primeiro livro nem experiência com a escrita. Desde 2011, ela mantém o blog pessoal Quebrei a Máquina de Escrever, e, além disso, já escreveu seis livros, entre eles o romance A Linha de Rumo, lançado em outubro do ano passado e o primeiro a ser publicado. Giulia nasceu em Vitória da Conquista, no interior da Bahia, sempre sonhou em ser escritora e, por isso, em 2015, quando chegou o momento de decidir sobre o futuro, resolveu cursar Jornalismo.

O lançamento de Vozes aconteceu na Uesb, no dia 28 de agosto, com a participação de Luciana Silva, advogada, e Flávia Mota, jornalista e orientadora de Giulia.

Foi na universidade e por meio do Jornalismo que Giulia encontrou uma maneira de dar vida a Vozes. Em mais de quarenta páginas, o livro, que está disponível em formato de e-book, traz relatos de estudantes que foram vítimas de assédio sexual no ambiente universitário em instituições públicas e particulares de Conquista, além de mostrar os bastidores das denúncias e a opinião de especialistas sobre o motivo de muitos casos caírem no esquecimento.

Durante a graduação, a autora acompanhou de perto histórias de vítimas de assédio e, por isso, decidiu tratar sobre o tema em seu livro. “Aquele período me afetou profundamente porque eu me sentia de mãos atadas em relação aos casos e me sentia sufocada pensando que existiam assediadores andando livremente pela universidade”.

Em entrevista ao Avoador, ela conta como foi o processo de escrita de Vozes, o que aprendeu sobre o assédio ao contar essas histórias e como o jornalismo pode ser utilizado para combater esse tipo de violência.

Avoador: Por que você decidiu escrever um livro-reportagem como trabalho de conclusão de curso?

G.S.: Eu escrevo desde os 9 anos de idade. Escrever foi a forma que eu encontrei de entender o mundo e as coisas que aconteciam comigo. Um dos motivos para eu ter escolhido cursar Jornalismo foi a possibilidade de escrever mais e melhor. Logo no primeiro semestre, eu descobri que poderia fazer um livro-reportagem como TCC e a escolha era óbvia para mim. Passei o curso inteiro falando sobre como queria escrever um livro-reportagem e como seria mais fácil porque já tinha escrito outros livros, mesmo sendo ficção. Nada aconteceu da forma como eu imaginei, mas consegui seguir com o projeto que eu sempre quis.

Avoador: O que te levou a abordar o assédio em universidades públicas de Conquista como tema do livro?

G.S.: Durante o curso, eu fiz parte de uma comissão que investigou e apoiou vítimas de assédio que fizeram denúncias contra um professor. Aquele período me afetou profundamente porque eu me sentia de mãos atadas em relação aos casos. Eu me sentia sufocada pensando que existiam assediadores andando livremente pela universidade e usando de suas reputações para se defenderem de qualquer tipo de denúncia contra eles. Quando eu cheguei ao período do TCC, resolvi que queria falar de um tema que me causasse raiva, algo que eu quisesse falar para desabafar sobre as páginas. O tema assédio surgiu naturalmente, e eu pude transformar este livro em uma forma de conclusão do momento anterior. Eu finalmente pude fazer algo, liberar minhas mãos das amarras anteriores. As histórias finalmente seriam contadas.

“Eu tinha medo de falhar com elas, de as colocar em risco e de não contar suas histórias da forma correta”.

Avoador: Quais percepções acerca do assunto o processo de apuração e investigação lhe trouxe?

G.S.: Eu me dei conta de que estava julgando as vítimas muito mais do que as ouvindo. Me dei conta de que eu me sentia dona da narrativa só por ser mulher, feminista, e por me sentir preparada para falar sobre o assunto. Escrever esse livro foi me despir de muitos preconceitos que eu nem percebia que carregava. Ao embarcar nas histórias que ouvi, eu pude me dar conta da importância delas e de como elas iam muito além do que a gente vê na mídia. O assédio sexual causa impactos muito graves na vida das pessoas que o sofrem. Elas são seres humanos que precisam de espaço e de apoio para tomar as melhores decisões sobre o que fazer quando são agredidas. As ferramentas que temos para ajudar as vítimas são nossos ouvidos e nossas vozes. O diálogo sobre o assédio precisa acontecer e ainda precisa avançar muito para que os agressores sejam punidos e as vítimas se sintam seguras novamente.

Avoador: Quais foram as maiores dificuldades que você encontrou durante o processo de escrita de Vozes?

G.S.: Escrever foi a minha maior dificuldade. Encontrar pessoas dispostas a falar e obter dados sobre os casos também foram processos complicados, mas tudo isso podia ser vencido eventualmente. Já o bloqueio causado pelo medo de fazer algo que pudesse afetar as vítimas era algo que me impedia de escrever. Eu tinha medo de falhar com elas, de as colocar em risco e de não contar suas histórias da forma correta. Eu me sentava para escrever e chorava. Me libertar das minhas ansiedades e medos foi muito difícil mesmo.

“O jornalismo é capaz de trazer a discussão à tona, mas é necessário também que a sociedade questione quando, muitas vezes, os casos de assédio são silenciados na mídia”.

Avoador: A partir das informações que você colheu para o livro, o que você acha necessário para que as instituições consigam combater de forma efetiva o assédio no ambiente acadêmico?

G.S.: A burocracia é uma das coisas que precisam superadas. Além disso, é preciso criar espaços que ofereçam apoio às vítimas. Mais do que qualquer coisa, as vítimas precisam ser ouvidas e apoiadas. Elas são questionadas desde o início e forçadas a entrar em um processo longo que muitas vezes parece não levar a lugar nenhum, e, por isso, acabam desistindo de denunciar. Assim, investigações ficam em aberto, o que leva a mais silenciamento. O processo precisa ser simplificado e deve priorizar a segurança e a saúde das vítimas.

Avoador: E por fim, na sua opinião, qual o papel do jornalismo e do jornalista quando o assunto é assédio?

G.S.: O jornalismo constrói muito do que está sendo discutido pela sociedade a qualquer momento. Muitas vezes ele escolhe o que deve ser dito, quem deve ser ouvido, fornece as informações necessárias sobre o que fazer para lidar com determinadas situações. As discussões começam pelo jornalismo ou se prolongam através dele. Se a discussão sobre o assédio está invisível, cabe ao jornalismo falar sobre o assunto. É claro que é preciso considerar também que dentro da própria profissão existem casos de assédio sexual. Eles são frequentes, e até mesmo causados por fontes, em público, diante das câmeras. O assédio acontece dentro de redações, causados por chefes e colegas. O jornalismo é capaz de trazer a discussão à tona, mas é necessário também que a sociedade questione quando muitas vezes os casos de assédio são silenciados na mídia.

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