Produzir literatura em Conquista ainda é um ato de resistência, dizem escritores
Apesar da falta de incentivo e da ausência de espaços de circulação, autores locais mantêm a produção literária de forma independente 29 de abril de 2026 Luan Pereira*Aos 12 anos, Duda Nazaré gostava de escrever poesias e recitar suas obras para os colegas da escola. Mas a paixão pela escrita foi interrompida por um episódio traumático. Em um dia qualquer de aula, uma professora rasgou seu caderno e disse que ela não sabia escrever. Foi somente na vida adulta que a conquistense, nascida no Povoado do Capinal, na zona rural do município, conseguiu retomar o gosto pelas palavras quando uma amiga lhe emprestou o livro “Quarto de Despejo”, autobiografia da escritora mineira Carolina Maria de Jesus.
Inspirada pela história de Carolina, que antes de se tornar uma das primeiras escritoras negras do Brasil, trabalhou boa parte da vida como catadora de recicláveis, Duda decidiu se dedicar novamente à escrita. Já formada na área de Libras, ela trancou o curso de Ciências Sociais na Uesb e retomou o seu processo criativo. Em 2025, essa mudança de rumo resultou no lançamento do seu primeiro livro, intitulado “Contos de Maria Neta e Maria Vó”, uma obra que homenageia sua avó, Maria Vitória, sua mãe e todas as mulheres que moldaram sua formação.
“Eu só fui ter essa autoestima e confiança de dizer que sou uma mulher negra escritora depois de muita terapia e autoconhecimento”, conta Duda. Após a sua publicação de estreia, ela participou da terceira edição da Feira Literária de Vitória da Conquista (FliConquista), em setembro de 2025, para falar sobre o processo de escrita da obra. Apesar das conquistas, a autora ressalta que são muitos os desafios de produzir literatura no interior da Bahia e no Brasil.
“Ser escritora negra no Brasil, sendo uma mulher de baixa renda e de família humilde, é um desafio diário, ainda estou tentando furar essa bolha, pois os custos para manter uma carreira de escritora não são tão acessíveis para pessoas como eu”, afirma Duda. Atualmente, ela não vive somente da escrita, atuando também como intérprete de Libras no grupo Mãos Tagarelas, que presta serviços de acessibilidade para produções audiovisuais.
Assim como aconteceu com Duda, o amor de Noi Soul pela escrita começou na infância, quando ela escrevia cartas para os pais e frases de amor em seus cadernos. O primeiro contato com os livros de poesia se deu por meio da Biblioteca Municipal José de Sá Nunes, onde conheçou obras de poetas brasileiros como Álvares de Azevedo, Castro Alves e Gregório de Matos.
Aos 11 anos de idade, Noi iniciou a escrita do seu primeiro livro de poesias, finalizado um ano depois, mas nunca publicado. Hoje, ela é uma poetisa com obras lançadas por editoras, como “Descompassos”, de 2024, e “Nua e Crua na Rua”, que chega ao mercado editorial em agosto deste ano. Além disso, é membro da Academia Conquistense de Letras (ACLETRAS).
Para ela, ainda é preciso mais incentivo para escritores e escritoras em Vitória da Conquista. “Apesar de esforços individuais e de alguns coletivos, estamos, como município, aquém do que poderia e deveria ser feito para incentivar os escritores de todas as idades e experiências, bem como para formar público leitor por meio de projetos formativos, em especial nas escolas.”

Noi Sul já lançou livros como “Descompassos”, de 2024, e “Nua e Crua na Rua”, de 2026. Foto: Arquivo Pessoal.
Conexão entre educação e escrita
Em meio às ausências de políticas municipais de incentivo à leitura e aos escritores locais, coletivos e outros grupos resistem na cidade para valorizar a literatura produzida em Vitória da Conquista. O Foro Literário Sertão da Ressaca, o Coletivo de Escritores Conquistenses, a ACLETRAS, além de bibliotecas comunitárias como a Donaraça, no distrito de Cabeceira do Jiboia, a Tia Nita, no Patagônia, e a Biblioteca do Miro Cairo, no Miro Cairo, são alguns dos espaços que colocam em evidência a comunidade literária local.
O escitor Marco Jardim é membro da ACLETRAS. Desde criança, ele esteve em contato com a literatura, especialmente por influência dos pais. Sua mãe, Elvarlinda Jardim, é escritora e integrante da Academia Conquistense de Letras, enquanto seu pai era fotógrafo, profissão passada por gerações desde seu bisavô. Ao acompanhar a mãe em diferentes espaços, seja na universidade ou em feiras literárias, viu surgir o seu amor pela escrita.
Com o lançamento do primeiro livro de Elvarlinda, “Vozes do Meu Sentir”, Marco começou a escrever poemas, de maneira despretensiosa, sem contar para ninguém. Foi aos 11 anos que criou coragem para mostrar para sua mãe o poema intitulado “O Filho da Noite” . Posteriormente, o texto foi publicado no segundo livro da matriarca, “Versos e Linhas”.
“A escrita, pra mim, ainda não se configura propriamente como ferramenta profissional. É algo ainda mais profundo. É a força motriz de tudo o que faço, o eixo invisível que organiza minha experiência no mundo e que transformo em linguagem”, destaca Marco.
Já Morgana Poiesis conheceu a literatura na escola, na 4ª série, quando ainda morava em Caetité, durante uma aula de redação do professor Fabiano Cotrim. O educador propôs aos alunos que fizessem um livro de poemas infantis, chamado “Meu Mesmo Poema”. Nessa dinâmica, Morgana se destacou. A partir de então, ela megulhou no mundo da escrita.
Atualmente, ela possui três livros publicados, sendo um de cordel e dois de versos livres. Neste ano, ela está às vésperas do lançamento de “Epístolas profanas”, em pré-venda pela Editora Libertinagem, mesmo em meio às dificuldades do mercado literário. “Nós temos dificuldades estruturais, de publicar, vender. Infelizmente, ainda é uma linguagem elitizada. Quem tem R$40 ou R$50,00 para comprar um livro de literatura?”.

Além de escritora, Morgana Poesis é jornalista e ativista cultural, sendo uma das organizadoras do Bloco Fita Amarela. Foto: Arquivo Pessoal.
Para Ybeane Moreira, o amor pela escrita também começou na sala de aula, aos 12 anos, quando o professor Wilson Oliveira apresentou as maravilhas e o peso que as palavras podem carregar. Hoje, possui cinco livros publicados, entre eles “Eu, Tu, Ela, Nós Mulheres”, uma obra que aborda a luta contra a violência sofrida pelas mulheres. “É um grito, um abraço e um espelho, onde muitas mulheres podem se ver, se reconhecer e, quem sabe, encontrar forças para seguir.”
A escrita e a literatura para ela são formas de se conectar consigo mesma, com outras pessoas e com o mundo, mas, no dia a dia, sente a ausência de espaços para a circulação de suas obras no município. “Conquista é uma cidade pulsante, culturalmente rica, mas ainda sentimos falta de livrarias independentes, de bibliotecas públicas mais ativas e de espaços onde o livro e o autor sejam celebrados para além dos eventos pontuais”, ressalta Ybeane.
Os desafios de escritores e escritoras
A ausência de espaços acessíveis para a circulação de obras literárias na cidade é um dos principais desafios apontados pelos escritores e escritoras. A Biblioteca Municipal de Sá Nunes, um dos poucos equipamentos culturais mantidos pela Prefeitura Municipal, teve a estrutura afetada pelas fortes chuvas de março deste ano.
Em uma publicação feita no Instagram no dia 1º de abril, a coordenação da Biblioteca Comunitária Donaraça, liderada pela bibliotecária Juliana Brito, denunciou que os temporais agravaram infiltrações, colocando em risco o acervo de mais de 35 mil exemplares.
Além da biblioteca municipal, o acesso a livros na cidade fica restrito a poucas livrarias, onde os preços não são acessíveis e os autores locais raramente fazem parte dos acervos. “Ser escritor em Vitória da Conquista é um ato de resistência poética diária. A gente respira literatura, mas enfrenta alguns desafios bem particulares da nossa cidade”, afirma Ybeane Moreira. “A cadeia do livro é frágil: faltam distribuidores, divulgadores especializados e, muitas vezes, o próprio poder público enxerga a literatura como um passatempo, e não como o trabalho”, complementa.

Ybeane Moreira possui cinco livros publicados, entre eles “Eu, Tu, Ela, Nós Mulheres”. Foto: Arquivo Pessoal.
O presidente da Academia de Letras Conquistense, Valmir Henrique, compartilha do mesmo sentimento de Ybeane. “Quantas livrarias há na terceira maior cidade da Bahia? Ser escritor de obras artísticas continua a ser um exercício de resistência de cultura literária”, enfatiza. Hoje, a organização é composta por 40 cadeiras, sendo ocupadas atualmente por 16 escritoras e 24 escritores.
Para muitos escritores, como é o caso de Noi Soul, a cena literária local resiste pela persistência e organização de coletivos e grupos de escritores independentes. “Atualmente, vislumbramos pequenos feixes de luz com movimentos independentes que acontecem às margens apesar das diversas faltas de incentivo. Nós, escritoras e escritores da cidade é que estamos nos fortalecendo mutuamente.”
Projeto de lei para literatura local
Numa tentativa de contribuir para a valorização dos escritores da cidade, a vereadora Márcia Viviane (PT) propôs, em fevereiro deste ano, o Projeto de Lei nº14/2026, que obriga a inclusão de no mínimo 10% de obras de autores locais nos acervos das bibliotecas das escolas municipais. No final de março, o PL recebeu parecer desfavorável da Comissão de Legislação, Justiça e Redação Final da Câmara.
Segundo o parecer, o projeto, ao atribuir à Secretaria Municipal de Educação, com apoio da Secretaria Municipal de Cultura, a manutenção dos acervos atualizados, realização de mapeamento e cadastramento de escritores locais, aquisição de obras e promoção de atividades pedagógicas, “interfere diretamente na organização e no funcionamento da Administração Pública e na gestão da política educacional e cultural do Município, matéria inserida na esfera de iniciativa privativa do Chefe do Poder Executivo.”
Apesar do impedimento da tramitação do PL, para escritoras como Noi Soul, iniciativas desse tipo seriam culturalmente estratégicas e educacionalmente importantes. “A medida estimula a cadeia produtiva do livro na região, reconhece escritores locais como agentes de formação simbólica e democratiza o acesso à produção literária que muitas vezes circula pouco fora de nichos específicos.”
Além disso, incluir autores locais nos acervos escolares seria uma forma de conectar os jovens com suas identidades e com o teritório. “Quando um jovem lê histórias ambientadas em sua própria cidade, com referências geográficas, sociais e culturais que reconhece, ele se sente representado e valorizado”, finaliza Ybeane Moreira.
*Luan Pereira é bolsista do Programa de Extensão Jornalismo como Forma de Transformação Social no Combate à Desinformação.

