Sertão baiano e sua potência artística performativa

Entre intelectuais, como Roberto de Abreu Schettini, artistas, criações e espaços culturais, a performance regional se apresenta em provocação, diversidade e profundidade 2 de maio de 2021 Morgana Poiesis

Parafraseando o professor-performer Lucio Agra, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em seu vídeo O que pode a performance no Nordeste, apresentado no Circuito Regional de Performance Bode Arte, em Natal, Rio Grande do Norte, 2011-2012, nos lançamos na provocação da performance artística como um deslocamento não apenas na representação da linguagem, mas também de territórios hegemônicos e privilégios geopolíticos.

Buscando não recair em uma delimitação regionalista, ainda que afirmando uma identidade como lugar de fala dos sujeitos sociais, insurgimos das mesmas entranhas que pariram as Algaravias de uma poesia polifônica (Waly Salomão) e a estética da fome de um Cinema Novo (Glauber Rocha), peregrinando por entre as léguas de línguas esculpidas por grandes veredas (João Guimarães Rosa) e os caminhos de Cora, a Coralina, nos sertões infinitos do Brasil profundo.

Em um contexto mais amplo, os Estudos da Performance foram definidos entre as décadas de 1950-70, nos Estados Unidos, por pensadores como o antropólogo, filósofo e psicólogo polonês Milton Singer, o sociólogo, comunicador e etnolinguista Robert Redfield e o teatrólogo Richard Schechner, sendo a Universidade de Nova York uma pioneira nesses estudos, acompanhada por experiências na Universidade de Northwestern, em Chicago, entre outras universidades de diversos países do mundo, como Reino Unido, Portugal, Índia e Austrália. No Brasil, os conceitos, metodologias e práticas interdisciplinares da aqui denominada Performances Culturais vêm sendo desenvolvidas por pesquisadoras e pesquisadores do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Performances Culturais, da Faculdade de Ciências Sociais, Universidade Federal de Goiás, sendo, por sua vez, uma pioneira na América Latina.

Reelaborando abordagens transamericanas no contexto do Cerrado brasileiro, as Performances Culturais se atualizam em perspectivas crioulas, mobilizadas por questões específicas dos lugares onde o conhecimento é praticado. Diversas especializações, linhas, grupos e núcleos de pesquisa vêm sendo criados com a inserção da performatividade em áreas já consolidadas, em programas de pós-graduações no país (UFBA, UFSB, UnB, Unirio, USP) denotando o desenvolvimento epistemológico das pesquisas performativas brasileiras.

Nos sertões vistos do lado de cá, também ecoam as performances lúdico-pedagógicas do diretor e professor de teatro Roberto de Abreu Schettini (1985-2015). Graduado, mestre e doutor em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia, Schettini foi um dos fundadores dos cursos de Teatro e Dança da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), campus Jequié, de onde escrevia: “Daqui, do interior baiano, daqui de Jequié, observo as montanhas que estão nessa cidade desde antes que nasci e que permanecerão aqui após a minha morte. Serenas, calmas, no mesmo lugar. Montanhas que emanam tranquilidade. Minha sensação ao vir morar em Jequié, em função da minha performance docente na implantação dos primeiros cursos de teatro e de dança do interior da Bahia, era a de que as montanhas estabelecessem outro tempo-espaço, uma suspensão da vida, como num jogo”.

Apresentando-se como “um homem do teatro”, Schettini plantou sementes vindouras do teatro performativo no sertão baiano, tendo sido fundador do grupo Finos Trapos e coordenador do Olaria: coletivo de artes integradas, performativas e de pesquisa, nas cidades de Jequié e Salvador, com os quais recebeu o prêmio Braskem de Teatro pela direção da peça Auto da Gamela (2007) e pelo espetáculo Algaravias: o Marujeiro da Lua (2015), respectivamente.

Como parte de seus projetos de ensino, pesquisa e extensão na Uesb, Schettini viabilizou diversas atividades formativas em performance artística, nas cidades de Jequié e Vitória da Conquista, incluindo parcerias com o Laboratório de Corpo-Criação-Performance-Interferência, desenvolvido por Morgana Poiesis, na Coordenação de Cultura/Proex/Uesb, nos anos de 2013 e 2014. Schettini deixou dois livros publicados pela Edições Uesb, a obra dramatúrgica Genesius: histriônica epopeia de um martírio em flor (2010) e O Teatro como a arte do encontro: dramaturgia da sala de ensaio, teatro de grupo, criação colaborativa (2018), resultado da sua pesquisa de mestrado. A sua tese de doutorado, na qual desenvolveu o Sistema de Jogos Performativos, também está em vias de publicação na forma livro, com financiamento público.

Além dos Finos Trapos e do Olaria, cuja perpetuação expressa a eficácia pedagógica do teatro performativo de Schettini, ainda como parte do seu legado, a cidade de Vitória da Conquista conta com mais um espaço cultural alternativo às estruturas burocráticas das instituições públicas: a Sala Jardins, concebida como parte de sua dramaturgia da sala de ensaio, segundo a qual, a estrutura do espaço faz parte da obra.

Por sua vez deslocada do centro cultural da cidade, a Sala Jardins é um espaço de criação artística sediado na própria residência dos artistas, construído entre os anos de 2013 e 2014, que conta com um escritório, um espaço de convivência e uma sala de experimentação, localizado no bairro Morada dos Pássaros. “Eu considero Roberto de Abreu como um grande mestre da performance na região, ele me apresentou à performance, assim como a outros artistas, do estar presente aqui e agora, em relação consigo, com o outro e com o mundo, sem interpretação”, afirma, em entrevista, o artista e professor da UFBA Ricardo Fraga, então companheiro de Schettini e sócio-fundador da Sala Jardins. Segundo Fraga, a construção da Sala foi autofinanciada, tendo sido contemplada recentemente com financiamento público para a sua manutenção e reestruturação através de editais municipais, com recursos oriundos da Lei Aldir Blanc, política federal de emergência cultural em vigor frente à pandemia da covid-19.

Como parte dos projetos financiados através de editais públicos, a Sala Jardins promove, atualmente, um ateliê de criação, através do projeto O corpo, a matéria e o simbólico: entre a performance e a psicomagia. Segundo Fraga, a proposta é trabalhar nas três dimensões do processo artístico, a formação do artista, com profissionais da performance, o lugar conceitual de provocação dessa linguagem, da experimentação em si, através de oficinas de expressão, e a fruição, a partir de uma exposição virtual no site da Sala Jardins, que está em construção. “Já tínhamos projetos e formações em artes do corpo e a psicomagia de Jodorowsky foi chegando como potencialidades da performance, essa grande mãe que abarca outras dimensões subjetivas”, afirma Fraga. “Propomos vivências desse lugar mais subjetivo da psicomagia, com questões que estão diretamente ligadas com a forma como eu me relaciono comigo mesmo e com o mundo, um processo terapêutico, de transmutação das imagens do inconsciente, através da arte e do corpo”, continua.

Segundo Fraga, o projeto se propõe a trabalhar com o corpo também na dimensão do autocuidado, através de abordagens somáticas como a Eutonia e o Feldenkrais, e influências de artistas da performance como Lygia Clark, Marina Abramovic, Lygia Pape, Valter Bertazzo, Anna Maria Maiolino, Cildo Meireles, Hélio Oiticica, entre outros. Os projetos em andamento da Sala Jardins reúnem artistas locais do teatro, da dança, da fotografia e do audiovisual, como Vinicius Gil, Daniel Leite, Erica Daniela, Rebeca Reis, Ketia Prado, Tiana Barbosa, Cristiano Martins, Shirley Ferreira, entre outros, sendo aprovados pelo edital estadual Jorge Portugal e pelo municipal Gildásio Leite, ambos financiados com os recursos da Lei Aldir Blanc.

Em contrapartida aos editais, os artistas da Sala Jardins propõem, ainda, o processo formativo e criativo Corpo em foco, que seria “um mergulho online na performatividade, com uma exposição online ao final, tendo como inspiração um compilado da performance no viés político de corpos invisibilizados, trazendo questões de negritude, LGBTQI+ e empoderamento feminino”, afirma Fraga, para quem a formação na linguagem da performance artística ainda se faz necessária, “principalmente trazendo para sujeitos que moram numa cidade do interior baiano, do Nordeste, do Brasil, da América Latina uma grande possibilidade de desconstruções e construções de novos olhares, questões que são importantes para o indivíduo e que reverberam no espaço social, para uma maior abrangência no acesso e percepção de toda a potência desse discurso, por parte dos artistas e da população”.

Dentre as potências performativas do sertão baiano, destaca-se, também, Alex Oliveira. Natural de Jequié e graduado em Comunicação pela UFBA, sua fotografia perpassa pela relação entre o audiovisual, a performance e a intervenção urbana. “Eu pesquiso a relação da imagem com a performatividade, as possibilidades em que as artes do corpo e a imagem podem se juntar na potência da comunicação de uma determinada mensagem. Eu vinha investigando dentro do meu cotidiano, a possibilidade de instaurar essas ações performáticas, essas ações interventivas no espaço da casa, no meu espaço íntimo ou dos meus amigos, e também em outros lugares, assim como no próprio espaço da rua. Nesse período de investigação artística eu pude trabalhar com alguns performers, alguns artistas do teatro, da dança, artistas do corpo, do entendimento do corpo como uma ferramenta, como uma linguagem, para mim foi a possibilidade de construir um trabalho bem híbrido”, relata o artista.

Desde 2019, durante a sua residência em Minas Gerais, Alex Oliveira vem desenvolvendo o projeto Fotoperformance Popular, nas cidades de Uberlândia e Belo Horizonte, que estará na cidade de Senhor do Bonfim-BA, neste ano. “A Fotoperformance Popular é um projeto em que eu instalo um estúdio fotográfico na rua, numa forma de pensar o estúdio como um dispositivo relacional e participativo, onde eu convido as pessoas, os transeuntes, os trabalhadores informais, outros artistas da cidade, para produzir fotoperformances nesse ambiente. Esse é um trabalho que é do cotidiano, de passar muitas horas no espaço da cidade, observando as pessoas, e as convidando para elas encenarem atitudes, gestos, para a gente pensar junto modos de composição da imagem, pensando a fotoperformance como algo que trabalha o corpo, e esse corpo está consciente junto com o fotógrafo”, explica Oliveira.

“O que mais interessa hoje em dia é pensar a arte da performance como uma possibilidade em que o artista é um mediador, mesmo, em que o artista media para que outra pessoa, para além do campo da arte, se coloque também performando junto, pensando a performance também como caráter de intervenção urbana, de mobilização participativa de várias pessoas em torno de uma ação, de trazer em xeque todo o acontecimento, para quebrar um pouco desse espaço sacralizado que é o ateliê do artista. Eu acredito que todo mundo tem essa potência artística em si, a gente nem sempre tem possibilidade de dar vazão a isso”, afirma o artista com  convicção.

Devido ao distanciamento social recomendado como medida de contenção à pandemia do novo coronavírus, as formas de criar e compor estão sendo reelaboradas pelos profissionais das artes e das culturas. Assim, a Fotoperformance Popular de Alex Oliveira, outrora instalada nas ruas, passou a ser protagonizada por sua mãe e anfitriã, Aurora, que também renomeou o projeto, na cidade de Jequié-BA. “Eu pude perceber gestos da minha mãe, nos espaço íntimos da casa, dentro de um cotidiano que é também ritualizado, e a convidei para ela representar esses rituais, esses pequenos ritos do cotidiano, no estúdio, num fundo infinito que eu instalei na cozinha da casa dela”, descreve Oliveira sobre o processo criativo Aurora.

O refluxo dos grandes centros urbanos para os interiores, durante a pandemia, tem propiciado uma reapropriação desses espaços-tempos outrora abandonados, em uma perspectiva estética, revelando suas potências singulares. “A forma de comunicar a minha arte transborda o meu lugar de origem. Para mim a performance no sertão perpassa por como o sertão performa uma determinada corporalidade, que tem a ver também com o clima, com a localidade, que tem a ver com todas as questões que atravessam o produzir arte dentro desses contextos. A Lei Aldir Blanc tem sido um meio de me fazer pensar formas de existir dentro do interior”, afirma Oliveira.

Nesse contexto, a política de emergência cultural da Lei Aldir Blanc mostra-se fundamental para a manutenção dos trabalhos artísticos no Brasil. O repasse dos recursos federais para os estados e municípios tem efetuado uma descentralização há tempos necessária da produção cultural para além das capitais, viabilizando os processos artísticos nos mais recônditos lugares que constituem a nação,  revelando a diversidade de suas realidades e manifestações simbólicas. Tal experiência aponta tanto para a ausência quanto para a urgência da implementação de políticas culturais permanentes no país, em uma perspectiva democrática e decolonial.

Morgana Poiesis, para a colunista do Entrelinhas do site Avoador.

Capa: Performers de Josy da Costa, Ricardo Fraga e Shirley Ferreira. Foto: Erica Daniela

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