“Fui abusada e nunca vou esquecer”

No Brasil, são 180 estupros por dia, 81,8% das vítimas são mulheres, 53,8% dessas vítimas são crianças de até 13 anos de idade. Conheça a história de uma dessas vítimas de abuso sexual na infância 23 de agosto de 2020 Da Redação

O Brasil carrega a violência de gênero em suas raízes, é uma nação que foi constituída sob o signo do estupro de indígenas e africanas. O resultado infeliz da romantização da colonização é a violência sexual contra a mulher naturalizada no cotidiano. Em meio à pandemia mal administrada pelos governantes e mais de 100 mil mortos, o país parou dia 16 de agosto para o aborto legal de uma criança de 10 anos, vítima de estupro desde os seis pelo próprio tio. Ela não é exceção. Eu também passei por algo parecido. Esta semana foi particularmente difícil pelas memórias de dor, angústia e mal estar que retornaram. Conto aqui para que nenhuma criança mais passe por isso.

ALERTA DE GATILHO: a partir daqui os relatos podem ser fortes. Há detalhes violência sexual.

A primeira lembrança é do alegre dia em que eu fui pela primeira vez à creche. Minha mãe soltou a minha mão e eu caminhei livre até a minha carteira. Eu era assim aos quatro anos de idade. Aos seis, eu lia a Bíblia sem nenhuma dificuldade e cantava sem timidez na frente de uma plateia significativa de pessoas durante os cultos. Aos sete anos, mataram a criança alegre e a potência que eu já sabia que era.

Um amigo da família, meu vizinho, passava pela porta da minha casa, todos os domingos, com a Bíblia embaixo do braço e acenava quando via meu pai na janela. Nas segundas-feiras, eu sempre saia para brincar nas calçadas. Eram dias longos de esconde-esconde, pega-pega, futebol e corridas com a bicicleta que eu disputava com meus irmãos. Então o vizinho aparecia me puxava e levava para o corredor de sua casa. Às vezes, sua esposa estava lá dentro e nem imaginava o que acontecia. Meus irmãos e vizinhos brincavam do lado de fora, e o que pensavam ser cuidado, era abuso.

Ele tomou o meu corpo de mim. Eu me lembro das mãos ásperas e frias tocando o meu corpo de criança e o tom baixo de sua voz dizendo: “calma, não vou tirar nenhum pedaço”. Era assim que eu chegava em casa com notas de R$10,00 e R$20,00. Enquanto as outras crianças se alegravam com a bondade do homem que dava o dinheiro para o doce, eu entrava no meu quarto escuro e chorava com a cabeça coberta.

No meu aniversário, o “bondoso” senhor fazia questão de me enviar presentes. Fui violentada até os 10 anos de idade. Foram cerca de três anos e meio de dor, até o dia em que colocaram as crianças do quinto ano no pátio da escola para ouvir uma palestra sobre sexualidade ministrada pelo agente de saúde. Naquele dia, eu entendi o que sofria e lutei sozinha para evitar que aquilo acontecesse novamente.

É por isso que a história dessa menina me paralisou e me deixou em lágrimas. Eu sei quantos traumas uma criança violentada carrega para o resto da vida. E uma gravidez torna tudo mais difícil. A igreja não percebia o que acontecia comigo. Quando eu mandava sinais pedindo socorro, ouvi várias vezes que era errado uma mulher pensar sobre o seu próprio corpo. Desde a demonização do cuidado com o corpo (“vaidade é do diabo”, “não use isso, use aquilo”) até a demonização da educação sexual e da própria sexualidade da mulher. Desde o dia do meu nascimento, não decido sobre o meu corpo. Essa foi a condição que me impuseram: “você não tem o direito de conhecê-lo!”.

Desde então, eu fico sabendo com frequência de outras mulheres adolescentes ou adultas que foram violentadas por parentes ou conhecidos evangélicos. Alguns deles ocupam lugares de prestígio dentro das igrejas. A cultura do estupro não é um termo vazio, é uma realidade  do cotidiano de cada uma de nós mulheres. E fundamentalismo religioso tem grande participação na manutenção dessa cultura violenta.

O debate sobre a cultura do estupro ganhou visibilidade no Brasil em 2016, após uma adolescente ter sido vítima de estupro coletivo na cidade do Rio de Janeiro. Me lembro de ter ouvido diversos comentários culpabilizando a menina que foi violentada por 33 homens. É por isso que apenas 10% dos casos são registrados pela polícia. A violência sexual no Brasil é normalizada pela da culpabilização da vítima e muitas mulheres são desencorajadas a denunciar.

As mesmas pessoas que divulgam dados de uma menor de idade se mobilizam em frente ao hospital para chamar de “assassina” uma criança de 10 anos, grávida de um estupro, que vai realizar um aborto garantido na lei. Um corpo que deveria estar no sofá assistindo TV, no quintal brincando na lama, no quarto lendo um livro, foi objeto de violência de seu próprio tio e dos moralistas. Sim! Objeto de violência desses que negam a educação sexual infantil, privando as crianças de terem acesso a informações necessárias para evitar o abuso sexual.

Onde estão os defensores da vida no cotidiano dessas crianças? No Brasil, acontecem 180 estupros por dia, 81,8% das vítimas são mulheres, 53,8% dessas vítimas são crianças de até 13 anos de idade. São quatro meninas de até 13 anos estupradas por hora, segundo o Anuário de Segurança Pública de 2019. Além disso, o anuário também aponta que 75,9% das vítimas possuem algum tipo de vínculo com o agressor. A maior parte dos agressores são pessoas  conhecidas, frequentam o ambiente doméstico da vítima ou moram nele. Os defensores da família sabem, mas preferem fingir que não estão cientes de que nós mulheres não estamos seguras dentro de nossas próprias casas.

Em meio a esse cenário, é preciso pensar o papel da igreja, que regida por uma lógica patriarcal difundida por diversos setores, inclusive por teologias presentes na maioria das igrejas do país. Durante anos, muitos  dos congressos e eventos para mulheres que participei se resumiam a pautas machistas: “como ser uma mulher virtuosa”, “como arrumar um namorado segundo o coração de Deus”, “curadas para servir”. A virtude da mulher na igreja estava sempre atrelada à obediência ao marido ou à forma de se vestir sem “vulgaridade”.

Eu sempre ouvi testemunho de mulheres “curadas” em muitos desses eventos. A maioria deles estavam associados a manutenção de casamentos abusivos. Para as adolescentes e jovens, pouco se dizia sobre trabalhar ou estudar, eram sempre dicas de como arrumar um namorado: “não ande feia”, “use tal roupa”, “seja difícil”. Apesar de ter notado uma mudança significativa nas pautas desses eventos nos últimos anos, é preciso pensar que muitas dessas igrejas modernizaram a sua estética, mas continuam com discursos tão perigosos quanto os de antes.

Eu conta aqui a minha história e dou a minha opinião porque luto por um outro mundo, um mundo que nenhuma criança passe por violência, qualquer que seja, especialmente sexual, e a igreja se abra para combater esse crime que também acontece por causa da sua omissão.

Foto: Ahmet Yarali via Getty Imagens

*Raquel Lemos – feminista, cristã e engajada na luta pela vida das mulheres vítimas da violências do discurso fundamentalista religioso. Estudante do curso de jornalismo da Uesb, repórter do site avoador e do Coletivo Bereia.

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